Encontrar agressores sexuais

Cuca e o estupro de Berna: uma pesquisa sobre o que aconteceu

2020.10.12 15:36 gustasilvab Cuca e o estupro de Berna: uma pesquisa sobre o que aconteceu

Com o post sobre o caso gerando uma repercussão aqui no sub, resolvi postar esse texto, fruto de uma pesquisa que fiz ontem para tentar entender melhor o caso. Espero que gostem da pesquisa.
O TÉCNICO CUCA E O ESTUPRO DE BERNA
Com a repercussão negativa da contratação do atacante Robinho, condenado por estupro na Itália, pelo Santos, outro caso de violência sexual envolvendo uma personalidade do futebol brasileiro voltou à tona. Em 1987, durante uma excursão do Grêmio pela Europa, o então meio-campista Cuca, hoje treinador que comandará Robinho no peixe, ficou um mês preso em Berna, na Suíça. Ele foi acusado de estuprar uma garota de 14 anos chamada Sandra Pfaffli junto com outros três colegas de equipe. Cuca acabara de chegar ao time e sequer estreara oficialmente. Os detalhes do caso são nebulosos. Para tentar entender melhor o que aconteceu, procurei relatos no decorrer dos desdobramentos em jornais suíços e brasileiros da época. Eis o resultado dessas buscas.
Os primeiros relatos do escândalo de Berna foram registrados pela imprensa no dia 1º de agosto. O jornal local em língua francesa Le Nouvelist descreveu o incidente primeiramente sem identificar os atletas: “Quatro brasileiros, com idade entre 20 e 24 anos, foram presos ontem sob suspeita de estuprar uma jovem de 14 anos. Segundo seu depoimento, a adolescente foi estuprada na noite de quinta-feira em um hotel da cidade. A investigação imediata resultou na prisão dos quatro brasileiros. A vítima e seus agressores tiveram que ser examinados no Instituto de Medicina Legal da Universidade de Berna”. O nome dos gremistas, contudo, é revelado em outra notícia, ainda nessa mesma edição, em texto sobre a ausência dos quatro jogadores na partida dos gaúchos contra o Neuchâtel Xamax. “A agência Sportinformation revelou que os quatro titulares, Cuca, Eduardo, Henrique e Fernando, foram detidos pela polícia de Berna. No entanto, a agência especificou que ‘estes quatro jogadores eram suspeitos de terem comprado roupa interior feminina para as oferecer a menores que estavam com eles na loja’.” O texto ainda pondera que o motivo é “muito leve para justificar uma custódia policial”. O jornal em alemão Walliser Bote fez apenas uma breve menção ao caso no relato da partida e não se aprofundou no conteúdo das acusações. A imprensa brasileira não tardou a tratar do caso. Edição do Estado de São Paulo, ainda no dia 1º, reportou as prisões e deu os primeiros detalhes: “Segundo o vice-presidente de futebol do Grêmio, Raul Régis de Freitas Lima, que acompanha a delegação, a menina invadiu o quarto dos jogadores no Hotel Metropol pedindo flâmulas e camisetas do clube e, depois de algum tempo, saiu do local, inclusive vestindo uma das camisetas. Horas após, um grupo de policiais foi ao hotel para prender os jogadores, informando que a menina havia registrado queixa de ser vítima e violência sexual”. O jornal aponta que material genético dos cinco envolvidos fora coletado.
No dia seguinte, a Folha de São Paulo informa que o caso havia sido repassado ao Itamaraty pelas autoridades suíças e explica que os jogadores estavam mantidos separados em três prisões: Henrique e Eduardo em Berna, Fernando em Belp e Cuca em Bugdorf. A reportagem ainda traz um relato da mãe de Cuca, dizendo ter sido informada de que apenas Henrique e Eduardo mantiveram relações sexuais com a menor, enquanto acreditava que seu filho havia sido detido apenas para cumprir o papel de testemunha. Cuca e Fernando foram presos 24 horas depois dos outros dois companheiros, conta. A Folha de São Paulo do dia 4 traz relato de um irmão de Henrique, contando que dois jogadores, não identificados, admitiram relações sexuais com a menor, mas de forma consentida, o que fora confirmado pelos exames médicos realizados em Sandra. A suposta confissão foi reafirmada pelo Estadão em texto dia dia seis, mas dessa vez nomeando os envolvidos: Henrique e Eduardo. Segundo Peter Schauff e Andreas Roth, advogados contratados para defender os jogadores, não há dúvida de que existe culpa no caso. Eles, no entanto, alegas que consideram o delito algo banal. O consulado brasileiro já havia entrado em contato com os jogadores a este ponto. Fernando e Cuca seguem negando participação. Reportagens dos dias seguintes, contudo, contradizem Cuca, e apontam que apenas Fernando não esteve ativamente envolvido com a menina. Os advogados argumentam que a relação foi consentida e que eles acreditavam que ela já era maior de idade. A agência de notícias Ansa, replicada pela Folha, relatou que os jogadores se sentiram provocados quando Sandra trocou de camiseta na frente deles. O juiz Jurg Blazer, indicado para instruir o inquérito, resolve colher um segundo depoimento de todos os envolvidos.
A descrição mais forte da acusação foi publicada no dia 14 pela Folha de São Paulo. O jornal repercutiu uma entrevista de Sandra para o jornal Blick, em que ela narra como foi seviciada após ter ido ao hotel junto com amigos, que foram expulsos pelos jogadores. Apenas ela foi mantida no local. “Afirmou que foi imobilizada por Fernando, Eduardo e Cuca, enquanto Henrique a violentava. Um outro jogador teria mantido relações sexuais com ela, mas Sandra disse não saber quem é”. Não encontrei a publicação original com a entrevista completa.
No dia 20, nota do Estadão noticia que o Grêmio voltou ao Brasil sem a presença dos quatro acusados, ainda encarcerados na Suíça. No dia 29, os jogadores foram liberados e embarcaram de volta o Brasil, informa a Folha de São Paulo. O juiz Jurg Blazer concluiu que não houve violência na relação sexual entre os acusados e a adolescente. Segundo o Consulado do Brasil em Genebra, o juiz asseverou que, como não foi comprovada prática violenta, os jogadores não se caracterizavam como pessoas perigosas à sociedade. “Sendo assim, a pena máxima para os atletas seria a condenação com sursis (suspensão condicional da pena)”, explica o texto. O último relato que localizei na mídia suíça se deu na edição de 31 de agosto do jornal Neue Zürcher Nachrichten, apenas com a descrição da chegada dos jogadores em solo brasileiro.
Apesar de a diplomacia brasileira argumentar à Folha que o caso se encerraria com essa decisão, a acusação seguiu para julgamento, conforme acompanhou o jornal em 28 de outubro de 1988, na ocasião em que o Grêmio avisou os atletas que os custos processuais, a partir de então, seriam de responsabilidade deles. A última menção ao caso na Folha foi em 16 de agosto de 1989, onde informa que no dia anterior, Cuca e Henrique foram condenados a 15 meses de prisão, podendo cumprir pena em liberdade. O periódico não informou qual a tipificação penal da condenação. Àquela altura, Fernando e Eduardo também já haviam sido condenados. Desde a chegada dos quatro ao Brasil, o Estado de São Paulo só mencionara a acusação mais uma vez, após partida em que Cuca fez quatro gols, mas sem trazer nenhuma nova informação. Não consegui encontrar um acervo com ferramentas de pesquisas para consultar os jornais locais do Rio Grande do Sul.
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